"Se o lugar não está pronto para receber TODAS as pessoas, o lugar é deficiente" (Thais Frota- Arquitetura Acessível)
Chamo-me Sara Coutinho, tenho 41 anos e aos 25 anos tive um acidente que me deixou parcialmente paraplégica. Pratiquei natação de alta competição, surf adaptado, já fiz slide duas vezes, sou apaixonada por desporto radical e há cerca de um ano saltei de um avião. Desde o ano de 2000 que o meu percurso tem sido superar barreiras e superar-me a mim própria para ter qualidade de vida e uma vida sempre ativa. Sinto que sou uma pessoa de coragem e que a minha vida não acabou numa cadeira de rodas. Ultimamente tenho feito vários trabalhos na área da moda e sinto-me uma pessoa realizada com o percurso de vida que tenho feito nestes 15 anos após acidente.
Fui convidada a testar o projeto pioneiro em acessibilidades turísticas dos Parques de Sintra que recebeu, em 2015, um Globo de Ouro de Turismo Acessível e há pouco tempo um prémio de boas práticas na categoria “Espaços, produtos e serviços em uso” da Fundação “Design For All”.
Portanto, sei que a acessibilidade, além de obrigatória, é possível, mas quando me desloco na minha cidade para ir ao Centro Histórico tomar um café ou um copo, é de todas as coisas que tenho feito, a mais complicada e irritante. Sou uma pessoa sociável e saio como qualquer outra pessoa e o centro histórico é um sítio que adoro, mas inacessível. Além de ter o paralelo, que já é um incómodo imenso por causa da trepidação e os fracos acessos dos passeios para pessoas com mobilidade reduzida, deparo-me com uma situação caricata: a falta de condições a nível de casas de banho. Toda a gente tem a necessidade de ir à casa de banho.
Por isso venho pedir que apoiem a ideia de adaptar a casa de banho pública localizada na Praça S. Tiago a pessoas com mobilidade reduzida e a criar condições mínimas de acessibilidade para que uma pessoa em cadeira de rodas possa circular autonomamente, sem ter que ser empurrada ou até, pegada ao colo.
É fundamental tornar o património cultural e natural do centro histórico inclusivo, melhorando as condições de acessibilidade aos espaços, sendo que, para o efeito, me disponibilizo a testar os percursos existentes para diagnosticar os pontos críticos existentes e outras necessidades que se possam descobrir em termos de mobilidade física.
Rampas todos conseguimos subir, escadas não. É preciso democratizar o território e até me esforço em contornar as imensas barreiras que tenho para circular, mas uma casa de banho adaptada é essencial para que possa permanecer mais tempo fora de casa. Até compreendo que os cafés, bares e restaurantes não tenham condições estruturais para terem casas de banho adaptadas, mas com aquela casa de banho pública acessível a pessoas com mobilidade reduzida eles ficam, de certa forma, servidos. Ou seja, a ideia passa por permitir que cada serviço da restauração tenha uma chave da casa de banho para que, no horário noturno, possa disponibilizar a quem a solicitar.
A casa de banho poderá, a partir daí, ser frequentada por todas as pessoas vimaranenses com mobilidade reduzida que queiram desfrutar do Centro Histórico e todas as que queiram visitar este espaço considerado Património da Humanidade. As pessoas idosas e com mobilidade reduzida poderão andar mais tempo na rua com autonomia e segurança. Não estamos a falar só de mim, estamos a falar de mais de 134 milhões de pessoas com mobilidade reduzida que existem, só na Europa.
A acessibilidade de um território como o Centro Histórico vimaranense não deve ser encarada como uma obrigação, mas sim, uma oportunidade de negócio para que a cidade se possa afirmar como um destino melhor para viver, trabalhar e passear. Guimarães pode ser muito mais competitiva se fizer uma aposta nas acessibilidades, porque o potencial destas pessoas como consumidoras e turistas permanece por explorar pela indústria.
E sinceramente acho que já está na hora do município ser mais ativo nestas situações de melhoria de condições e acessos para pessoas que se deslocam em cadeira de rodas e que necessitam e têm o direito, como qualquer outra pessoa, de ter uma vida ativa e social.
A promoção da acessibilidade é a condição essencial para o pleno exercício de direitos de cidadania consagrados na Constituição Portuguesa.
Guimarães é de TODOS e para TODOS e cada vez tem que ser mais inclusiva e acessível a TODOS os cidadãos.
“A Acessibilidade pode ser definida como a capacidade do meio (espaços, edifícios ou serviços) proporcionar a todos uma igual oportunidade de uso, de uma forma direta, imediata, permanente e o mais autónoma possível”. in guia “Portugal: Turismo para Todos – Sistema de Análise e Divulgação das Condições de Acessibilidade em Locais de Interesse Turístico”
O turismo acessível, apenas na Europa, vale 90 mil milhões de euros, segundo dados do Instituto de Cidades e Vilas com Mobilidade para Todos (ICVM), corresponde a metade do Produto Interno Bruto (PIB) português. Não estará na altura da cidade-berço tentar atrair e captar algum desse valor?